Operação especial retira garimpo da Terra Yanomami, mas surto de malária ainda ameaça indígenas três anos depois
Especialistas avaliam que falta de testes de diagnóstico nas aldeias no tempo adequado, em meio às longas distâncias dentro do território, são o principal gargalo
03/02/2026
Lucas Altino
Em janeiro de 2023, o governo recém-empossado deparou-se com uma crise humanitária alertada por meio de fotos de crianças e idosos desnutridos na Terra Indígena Yanomami (TIY), em Roraima. O grito de socorro se sobrepôs à tradição da etnia, que evita a divulgação de imagens de parentes mortos, e motivou a criação de uma força-tarefa para enfrentar o avanço do garimpo e conter a disseminação da malária, uma das principais causas de óbitos na região. Três anos depois, a presença garimpeira foi reduzida drasticamente, mas os casos da doença seguem em níveis de epidemia, apesar da redução na letalidade. Na avaliação de especialistas, a falta de testes de diagnóstico nas aldeias no tempo adequado, em meio às longas distâncias dentro do território, são o principal gargalo.
O decreto de emergência pública na TIY e o envio de tropas e aviões da Força Nacional e do Ibama tiveram resultado no primeiro semestre de 2023. Mas, pouco a pouco, os garimpeiros expulsos retornaram ao território, e em 2024 a área ocupada por eles era ainda maior. Desde então, a presença de agentes e fiscais tornou-se permanente, em um trabalho comandado pela Casa Civil. Segundo a gestão petista, de março de 2024 a janeiro de 2026 houve redução de 98,8% na ocupação do garimpo - de 4.570 para 56 hectares.
- O maior problema no controle de qualquer atividade criminosa na Amazônia é a sequência da fiscalização. Se tira a vigilância, retornam. A partir de 2024, o governo manteve essa continuidade na Terra Yanomami - explica Hugo Loss, coordenador de operações de fiscalização do Ibama.
No período, o governo também celebrou a redução da letalidade da malária. De acordo com o último boletim oficial da chamada Missão Yanomami, a proporção de óbitos entre os casos confirmados da doença reduziu 29,6% entre 2023 e 2024, e 58% entre 2024 e 2025. Foram registradas 26 mortes em 2023, e 15 em 2024, apontam números do Ministério da Saúde. Em 2025, foram três no primeiro semestre, o dado mais recente. Em relação aos óbitos gerais, muito influenciados por desnutrição, casos de agressão e infecções respiratórias, o índice caiu de 428 em 2023 para 337 em 2024.
Os casos de malária, porém, seguem em níveis alarmantes. Em 2023, foram 31.207 diagnósticos, e 34.259 no ano seguinte, basicamente o mesmo tamanho da população total da TIY. Em 2025, até o momento, o painel do Ministério da Saúde informa 26.655 testes positivos, mas essa quantidade deve aumentar, uma vez que, em média, metade dos diagnósticos tem levado até 60 dias para entrar no sistema.
Waihiri Herukari, presidente da Urihi Associação Yanomami, confirma a queda no garimpo. Já a malária, embora menos letal, ainda afeta seus parentes:
- O governo contratou médicos, profissionais, por que não consegue resolver? Essa é a nossa dúvida. Com o recurso disponibilizado, não era mais para ter malária aqui, não tem justificativa.
O líder indígena conta que a interlocução com o Ministério da Saúde foi prejudicada nos últimos anos, e as informações não chegam mais diretamente aos representantes Yanomami. Em 2024, o médico Marcos Pellegrini pediu exoneração da coordenação do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami após críticas de indígenas sobre falta de diálogo, além das queixas pela persistência do alto número de casos de malária.
R$ 470 milhões investidos
Hoje, a TIY dispõe de 1.855 profissionais em 77 polos de saúde - vários reativados após a expulsão do garimpo - para atender 399 comunidades, que somam cerca de 33 mil indígenas. Quando houve a declaração de emergência pública, em janeiro de 2023, o governo estimava que 5.224 indígenas estavam sem qualquer acesso à saúde. Entre 2023 e 2024, foram desembolsados R$ 470 milhões em infraestrutura. O atendimento de enfermeiros, nutricionistas, assistentes sociais e a aplicação de vacinas cresceram exponencialmente.
Diante desse investimento, os resultados já deveriam ser melhores, avalia Gustavo Bretas, consultor do Programa de Malária do Suriname, do Ministério da Saúde, que erradicou a doença no país vizinho amazônico. Somente em 2024, o governo previu investimentos de R$ 1,2 bilhão:
- O aumento do tratamento certamente diminui a mortalidade e a letalidade. Porém, não foi suficiente para diminuir de forma considerável a incidência, e o número de casos continua elevado, em níveis similares aos de 2023, quando foi considerada uma epidemia. Além do mais, já não há mais garimpo, então qual a razão?
O especialista destaca que a malária ocorre mais em regiões específicas, o que deveria direcionar esforços. Ele também frisa que a alta incidência do diagnóstico do tipo Falciparum - o mais grave da doença, mas que pode ser tratado em até sete dias, cortando a transmissão - reforça a falha na agilidade de diagnósticos. Em 2025, houve 8.071 notificações de malária por Falciparum (o que deve aumentar). Em 2023, haviam sido 9.351.
- Se o sistema de diagnóstico funciona bem, o Falciparum é erradicado rapidamente. O gargalo é que não tem diagnóstico direto nas aldeias. No Suriname, a gente usava provas rápidas nas aldeias, fazendo teste no local. Não pode esperar chegar um grupo de Boa Vista uma vez a cada dois meses. Na Terra Yanomami, há a questão da distância. Como falam na Amazônia, tudo é perto do longe - diz Bretas.
No fim de dezembro, a Fiocruz publicou um artigo no Malaria Journal, revista internacional especializada, sobre o impacto das ações do governo no combate à doença na TIY. O trabalho concluiu que houve aumento na detecção de casos, redução de hospitalizações e estabilização do número de mortes por malária em Roraima entre 2021 e 2024. A reativação de polos-base de saúde indígena e o aumento do número de profissionais foram os principais trunfos, indicou o estudo.
- A intervenção tirou o garimpo e conseguiu retomar as unidades básicas de saúde. Então chegou tratamento, remédio e até comida. Mas é preciso ter ação continuada e conjunta, se não volta tudo de novo - afirma Maria de Fátima Ferreira Cruz, cientista da Fiocruz e coordenadora do estudo. - Precisa de vigilância sobretudo nas fronteiras. Os yanomami se locomovem muito, e nossa hipótese é que um parasita novo foi introduzido vindo da Venezuela.
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/02/03/operacao-especial-retira-garimpo-da-terra-yanomami-mas-surto-de-malaria-ainda-ameaca-indigenas-tres-anos-depois.ghtml
PIB:Roraima/Mata
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